3) Tinos Arrival in Brazil / Chegada no Brasil – Fazenda Santa Eudóxia

Caixinha da Marcellina Tinos

Chegada de Marcelina Tinois e Luiz Areias ao Brasil

(Entrevista dada por Tia Rosa, Rosa Gomes Areias à sua sobrinha-neta Juliana Areias em 2000 em São Paulo-SP, Brasil.)

“Cerca de 3,8 milhões de estrangeiros entraram no Brasil entre 1887 a 1930.

No período de 1887 a 1914,mais ou menos 2,74 milhões, 72% do total,

diretamente para as lavouras de café do Estado de São Paulo.”

(Fausto,Boris – História do Brasil)

Quando Marcelina Tinóis, austríaca, tinha 7 anos em 1882 ou entre 1874-1884, desembarcou com toda a família irmãos e pais no Porto de Santos. <*1>

Ainda em Viena, seu pai Antônio Tinois servira o governo, numa grande guerra, durante 10 anos, período que ficara ausente de casa. Pressentindo a possibilidade de acontecer o mesmo aos filhos gêmeos, quase em idade de “servir o governo”, decidiram partir ao Brasil. <*2>

Embarcaram num navio onde havia duas classes de passageiros: os que não pagaram a viagem e que então imigrariam como “escravos-brancos” – sistema de parceria onde trabalhariam “de graça” para o fazendeiro até que seu trabalho pagasse os custos da viagem – ou como eles, os que pagaram os bilhetes e seriam imigrantes livres. Porém chegando à Santos, o capataz do navio, levou todos para serem vendidos como escravos-brancos em São Carlos. <*3>. Falando somente sua língua natal, o “Furlan” – mistura de alemão com francês – <*4> não puderam entender logo o que se passava. Numa grande fazenda lhes serviram a primeira refeição em terra, como se fossem animais: o arroz era despejado das panelas diretamente sobre a táboa da mesa e o feijão servido em latas. Os homens ficavam nas filas das extremidades enquanto as mulheres e crianças ao centro, no intuito de protege-las. <*5>

Não se sabe quanto tempo permanesceram lá até conseguirem fugir. <*6>. Viajavam à pé, pelo estado de São Paulo. Possuiam dinheiro, em forma de barra de ouro, do que nada adiantava se não tinham comida. Até que foram acolhidos em São Carlos pelo Fazendeiro Cunha Bueno que lhes deu trabalho para cuidarem da terra ainda na enxada, só que desta vez como empregados.

Trabalhavam todos os imigrantes juntos, sem distinção de sexo, idade, nacionalidade ou cultura, até que um novo administrador português Luiz Areias, decidiu dividir os empregados em grupos e trabalhos diferentes, aproveitando melhor os de “mais cultura”. Foi depois dessa divisão que ele pode perceber a existência de uma “mocinha” Marcelina Tinois, sua futura esposa.

Luiz Areias e seu irmão Manuel, (casado com a espanhola Claudina, detestada pela sogra, que queria vê-la longe), vieram para o Brasil também no intuito de fugir de prestar serviço ao governo, desta vez parece que numa guerra que envolvia URSS ou Alemanha de um lado e Áustria, Espanha e aliados do outro. <*7> Luiz veio como administrador da fazenda de Cunha Bueno e Manuel como seu auxiliar. Segundo estima Tia Rosa chegaram em 1892 ou1902 . <*8>

Luiz (1,85m e 110k) e Marcelina casaram-se primeiramente no religioso, na Cidade Água Vermelha, próxima à São Carlos, tiveram 4 filhos : Maria, (2 Antônios que morreram), José, Jacinta e Antônio (1905) e só depois casaram-se no civil, já em Bebedouro.(Entre uma cidade e outra, moraram também em Jaboticabal). Em 1906, decidiram voltar à Europa. Marcelina na viagem de navio, abortou com seis meses de gestação dois meninos gêmeos. Moraram em Figueira da Foz – Portugal, durante dois anos, trabalhando nas quinta (vinha) da mãe de Luiz. Com o novo início de gravidez de Marcelina, resolvem voltar para o Brasil. Marcelina queria que todos os filhos fossem brasileiros. Em 1908, já em solo nacional, nasceu Isabel Gomes Areias (Bela).

Marcelina teve ao todo 10 filhos que vingaram, mais no mínimo quatro perdidos (os dois antônios e os dois gêmeos abortados naturalemnte no navio). Seu último parto em 1921 (de Laura), foi difícil, e sua amamentação era rude, leite cansado, devido ao trabalho direto cozinhando no Hotel . Por esse motivo Laura, foi criada e amamentada até aos 3 anos por Maria, sua primeira irmã.

Luiz após ter sido proprietário em Bebedouro da Pensão, depois Hotel Areias (hoje chamado Amadeu), em 1922, compra terreno em Colina e “máquina de arroz” para beneficiamento e faz também uma serraria.

Em quinze de abril de 1938, com 65 anos, morre o próspero Luiz. Com seu falecimento, como toda típica família brasileira, os irmãos se dividem e essa desunião destrói o patrimônio do pai. E onde até então existia fartura, passou a existir carência e dificuldade. As filhas caçulas Rosa e Laura cuidaram de sua mãe Marcelina até sua morte em dezenove de junho de 1965, com 90 anos, em São Paulo.

Tia Rosa conta que sua mãe era vidente, e todo parente que morria, ela já anunciava antes da notícia oficial chegar, dizendo que o espírito da tal pessoa tinha vindo se despedir dela, como foi o caso da querida irmã de Luiz, a Rosa I. Parece que essa herança nenhum dos filhos adquiriram.

10/6/2004: Conversando novamente com Tia Rosa via telefone (ela está morando em Fortaleza com Tio Ninho, já que minha avó Laura faleceu em 18/9/2003), existem alguns fatos a serem consertados. É importante dizer que Tia Rosa apesar de idosa, 86 anos, continua bem lúcida, com o raciocínio absolutamente normal. Ela disse que:

a) Quando Luiz Gomes Areias e seu irmão Manuel chegaram, Manuel ainda era solteiro. Ele conheceu a espanhola Claudina em Bebedouro-SP. Ela tornou a citar o gênio dificil de Claudina: mandona e que não gostava de fazer nada em casa, preferindo ficar sem comer que a cozinhar.

b) Disse novamente que quando Marcelina chegou ao Brasil tinha 7 anos. <*1>

c) Disse que Marcelina não falava alemão ou francês, só o furlan, que na verdade era italiano. Inclusive as pessoas pensavam que ela era italiana. Ela falava furlan com sua irmã Catarina e Tia Rosa não entendia nada. <*4>

d) Perguntei se Marcelina tinha parentes na Itália e ela disse que sim, que tinha sobrinhas e que Tinois era um sobrenome importante e uma família antiga na Itália. Parece que essas sobrinhas eram por parte da mãe de Marcelina (que Tia Rosa não confirmou que se chamava Isabel. ( de fato, na verdade se chamava Elisabetta Grassetti).<*9>

e) Não soube dizer quando Luiz chegara pela primeira vez, mas certamente foi depois de Marcelina e ele já era adulto. Disse desta vez que ele veio trabalhar como montador na montagem de maquinário para beneficiamento de arroz, algo assim. <*8>

f) Certamente se referindo a primeira chegada de Marcelina com os pais e seus irmãos em 1885, confirmou que estiveram na Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo por uma semana, e que foram pra São Carlos, depois Araraguara, um mêsem branco…” e São Carlos de novo. <*10>

g) O chamado primo Manuel portugues é filho de Manuel e Claudina. ainda está vivo e viaja o tempo todo. Tem algo a ver com 2 sobrinhos, 3 primos algo assim. <*11>

Notas de Juliana Areias em 30 de Agosto de 2017:

<*1> Precisamente, Marcellina Tinos chegou com 9 anos em 16/4/1885 na Hospedaria dos Imigrantes do Bom Retiro em São Paulo, junto com seus pais Antonio Tinos e Elisabetta Grassetti e seus outros 7 irmãos vivos.

<*2> A Família Tinos era de Strassoldo no Friuli e não de Vienna, como acreditava a tradição oral deixada no Brasil. O casal Antonio Tinos e Elisabeta Grassetti, tiveram ao todo 9 filhos, todos nascidos em Strassoldo, dos quais a oitava, Eugenia Tinos I morreu ainda na infância, antes da vinda da família pro Brasil. Portanto vieram apenas oito irmãos: Celestina, Luigi, Anna Maria, Giuseppe Vicenzo, Catarina, Antonio (Jr.), Marcellina e Eugenia II. De fato, o filho Luigi, estava para completar 20 anos em 1885, quando chegaram ao Brasil, idade do alistamento militar austríaco. Por um documento encontrado no Arquivo de Trieste, sabemos que o pai Antonio Tinos pediu licença do alistamento militar do Luigi para emigrar para a Argentina em 1882, e que esse pedido foi negado por não haver evidência do estado de pobreza da família e que a emigração traria melhoras ás condições de vida deles. Fica a pergunta, se tentou pedir novamente licença em 1885 ou se viajaram clandestinamente. Quem teve gravidez de gêmeos, foi Marcellina Tinos em 1906, gravidez perdida na viagem do Brasil pra Portugal, sendo a própria Tia Rosa e minha avó Lola ( Laura Gomes Areias).

<*3> Como provado pelos recortes de jornais, o Vapor Maria que trouxe as Famílias Tinos, Feresin, Rosin e Sandrin, desembarcou em Santos no dia 15 de abril de 1885 por volta das 10 da manhã, trazendo cerca de 1000 imigrantes, um recorde até então. Por despreparo da companhia de trem de ferro e da Hospedaria dos Imigrantes do Bom Retiro em São Paulo (com capacidade oficial para atender apenas 500 imigrantes), os imigrantes do Vapor Maria tiveram que ficar em Santos o dia todo a esmo, perambulando pela cidade, sem saber o que acontecia, sem assistência, literalmente mendigando água, comida, e só foram levados para São Paulo, para a Hospedaria dos Imigrantes do Bom Retiro no dia seguinte. Da Hospedaria dos Imigrantes se encaminhava os imigrantes para as fazendas de café espalhadas pelo interior do Estado de São Paulo. De fato houve mais polêmicas dentro da Hospedaria dos Imigrantes. Um recorte de jornal mostra que Antonio Tinos estava entre o grupo de imigrantes “tiroleses” que assinaram uma reclamação formal exigindo que o pagamento do subsídio da passagem aprovado pelo Governo Brasileiro deveria ser feito diretamente a eles ( segundo a tradição oral Antonio custeou suas próprias passagens) e não aos fazendeiros que os contratavam. Outros recortes de jornais e livros documentam a confusão criada por um italiano chamado Augusto Nardelle que circulava pela Hospedaria dos Imigrantes e arredores e tentava ludibriar ou alertar os imigrantes incitando uma rebelião.

<*4> O furlan é a língua falada na região do Friuli, está mais próxima do edima italiano do que do francês e alemão. O Friuli pertence ao norte da Itália desde o final da Primeira Guerra Mundial em 1918. Antes disso pertenceu ao Império Austro-Húngaro (1813-1918). É uma região antiguíssima que sofreu incursões romanas, bárbaras, turcas, napoleônicas e foi dominada por vários povos diferentes ao longo de sua história. Pertenceu aos Celtas ( 1000AC); aos Romanos (até 457 com a destruição de Aquiléia por Átila); aos Lombardos ( ascendendo em 568); aos Francos e Germânicos (794 Dinastia Ottone); aos Patriarcas de Aquiléia (952), aos Venetianos ( 1420-1797), à França Napoleônica (1805-1806), à Áustria (1813-1918) e à Itália (apartir de 1918).

<*5> Acredito que essa narração ainda se refira a precária, improvisada e quase inexistente assistência recebida ainda em Santos no dia da chegada do Vapor Maria, 15 de abril de 1885.

<*6> Acredita-se que fugiram da primeira fazenda onde trabalharam em São Carlos, segundo a tradição oral, chamada Fazenda Boa Esperança ( No Almanaque de São Carlos de 1916, a Fazenda Boa Esperança aparece como localizada em Ararahy, propriedade de Francisco Arruda Machado. A localidade Ararahy ficava entre Água Vermelha e Santa Eudóxia. Toda essa região era chamada de Sertão de Araraquara).

<*7> Guerra envolvendo a Rússia de um lado e a Áustria e aliados do outro, foi a Guerra da Cremeia em 1854-1857, na qual o Antônio Tinos deve ter participado. Luiz Gomes Areias nasceu em 1872, logo se chegou adulto no Brasil, pode ter chegado em torno dos seus 20 anos em 1892. Pode ser que tenha vindo para escapar do serviço militar português, no entanto não houve nenhum conflito significativo entre 1890-1897 ( Veja lista de guerras), período da chegada do Luiz Gomes Areias no Brasil, considerando que tenha chegado mesmo adulto e que se casou com Marcellina Tinos no religioso em Água Vermelha, São Carlos em 4/9/1897. Como prova essa certidão de casamento, Luiz já estava no Brasil em 1897.

<*8> Informação difere da primeira, quando se diz que veio trabalhar como administrador da Fazenda Santa Eudóxia do proprietário Francisco da Cunha Bueno, onde conheceu a Marcellina Tinos, sua futura esposa e não como montador de máquina de beneficiamento de arroz. No entanto, foi industrial e proprietário de máquina de beneficiamento de arroz tem Colina, mais tarde, após a sua segunda chegada ao Brasil em 1908.

<*9> Acredito que se refira a sobrinhas de Antonio Tinos e Elisabetta Grassetti, logo ás primas de primeiro grau de Marcellina Tinos. De fato, até agora, temos conhecimento dos descendentes de Giovanni Tinos ( irmão do Antonio Tinos), seus filhos Ernesta, Mariuta, Rosaria, Giuseppe Luigi e Attilano ( pai de Pia, Carlo, Zita, Luigi e Maria, que se parece muito com minha avó Laura Gomes Areias); e da Emma Augusta Grassetti, filha do irmão de Elisabetta Grassetti, o Giovanni Batista Grassetti casado com Orzola Zuliani.

<*10> Entre a Fazenda Boa Esperança e a Fazenda Santa Eudóxia ( do Cunha Bueno), a possibilidade de terem então passado por Araraguara, a se averiguar, ou seria apenas o fato e toda a região incluindo Santa Eudóxia ser chamada de Sertão de Araraquara na época. Ver nota *6 acima.

<*11> As picuínhas entre a sogra e nora, revelam que a espanhola Claudina Dias era uma mulher avançada para o seu tempo, destemida, de personalidade forte, fora dos padrões da mulher submissa ao marido, à família e à sociedade. Manuel Gomes Areias, casado com a espanhola Claudina Dias tiveram dois filhos: Alfredo Gomes Arêas, (jornalista adepto do Modernismo correspondente de Mario de Andrade, que com o objetivo de abrasileirar seu sobrenome, passou a assinar Arêas ao invés de Areias) e Marcelina Gomes Areias (que morreu na infância). Alfredo acreditava ter nascido em Portugal, mas não foi encontrado seu documento de nascimento lá em Pombal. Alfredo por sua vez, casou com Ercilia Arnalli e tiveram 5 filhos: Maria Gemma Area Castellani, Claudina Gomes Areas Ferraz, Luci Gomes Areas Toller, Manuel Gomes Areas ( o Manuelzinho citado pela Tia Rosa, neto e não filho do Manuel Gomes Areias) e Jose Alfredo Gomes Arêas, professor universitário da USP na área de nutrição. Segundo a história oral contada pela família, o sobrenome Areias foi criado do apelido adquirido após um dos Gomes se defender de uma briga ou assalto, jogando areia nos olhos do adversário. Nos assentos de batismo dos irmãos Luiz Gomes Areias e Manuel Gomes Areias, seus pais são declarados como Bernardo Gomes e Jacintha dos Santos. Bernardo, filho de Francisco Gomes e Maria Antunes (Nunes). Francisco Gomes e Maria Antunes tiveram ao menos dois filhos: Bernardo Gomes (Areias) e Joze Gomes (Area). No batismo do neto Joze Gomes nascido também em Arrothea, Pombal em 27/5/1877 se declara que era filho de Joze Gomes e Luiza Maria; e neto de Francisco Gomes AREA e Maria Antunes e de Manuel João Baptista e Anna Maria. Sobre outros Gomes Areias no Brasil, sabemos que esse mesmo Joze Gomes, filho de Joze Gomes e Luiza Maria, obteve passaporte em 10/1/1902 com destino a São Paulo, viajando sozinho. E que seu irmão Gabriel Gomes, em 13/3/1909 obteve passaporte com destino ao Rio de Janeiro viajando sozinho. José Alfredo Gomes Arêas me relatou que seu pai Alfredo Gomes Arêas contava que tinham parentes na África e que de fato nos anos 50 receberam visita de um primo indeterminado de seu pai que morava em Angola ou Moçambique.

PDF File: Areas – JoseAlfredo por José Alfredo Gomes Arêas – 2007

PDF File: FAZENDA CUNHA BUENO por Sonia Maria Trobelli e  José Augusto Pereira

PDF File: Fazenda Sta Eudoxia2[1]

PDF File: FazendasSCarlos Almanaque1916 – Fazenda Boa Esperança

PDF File: Mapa Fazendas[1] – Santa Eudóxia e localidade Ararahy

PDF File: LauraGAreias diarios 

PDF File: LauraGAreias Albformatura

PDF File: LuisGAreias saude

PDF File: Doc SConduto Marcellina

PDF File: Doc VaporMaria+casamentosSCarlos